Novo UMM Alvor

Capa de revista 4X4 MONDIAL CLASSIC de janeiro/fevereiro de 2022

Porque desperta interesse o UMM Alvor?

A versão Alvor Cabriolet, de entre todos os UMM de modelo Alter II, desperta curiosidade, interesse, admiração e até polémica entre os apreciadores UMM. As razões deste “ALVORoço” vão além da óbvia rutura com o design dos UMM Alter produzidos antes e depois do Alvor. Embora dificilmente passe indiferente, o visual deste carro – que parece extraído de uma banda desenhada franco-belga do final do século XX – não esgota nem é a principal das razões de interesse.

A génese e o desfecho dos UMMs Alvor – mal conhecidos pela generalidade dos apreciadores UMM – muito contribuem para o seu fascínio.

Uma das fontes consultadas para este projeto de reconstituição de Alvor é o piloto-mecânico UMM Carlos Barbosa – conhecido pela alcunha de “TUCHA”, com que competiu no Paris-Dakar e nas provas nacionais mais importantes, e que conta com milhares de UMM preparados e ensaiados por si – a quem a União Metalomecânica atribuiu, como viatura de serviço, um dos protótipos de UMM Alvor. Por ser apadrinhado por um dos gémeos Baptista da Silva – sócios da União Metalomecânica – Carlos Barbosa ficou a saber em primeira mão que a ideia de criar o UMM Alvor surgiu de uma conversa de jantar entre esses donos da União Metalomecânica e o dono do Hotel Alvor. Daí até chegar a uma versão de UMM que irradia a evasão da vida do dia-a-dia para os grandes espaços ao ar livre, em ambiente de férias, é fácil perceber a inspiração na famosa localidade de praia algarvia com o mesmo nome.

Em vez dos habituais dísticos UMM – que apenas permaneceram nos cubos desembraiadores – o Alvor exibiu pela primeira e última vez na História UMM, autocolantes de desenho naïf (de pôr do sol sobre o mar e da palavra “ALVOR”), a cor prateada das jantes, das abas laterais, dos para-choques, do spoiler e da tomada de ar sobre o capot. Mas esta série especial não teve apenas uma decoração diferente da série normal de UMM Alter II do mesmo ano 1992. A sofisticação adicional desta versão Alvor, deveu-se à exibição da superioridade tecnológica e estética, em caraterísticas tais como: capota branca com a invejada qualidade do élon importado dos Estados Unidos; rádio com leitor de CD; fecho centralizado com comando à distância; instalação opcional (pouco útil num Cabriolet) de ar condicionado; motor com débito de 110 cavalos (em vez das alternativas de 90 e de 76 cavalos); e bancos mais sofisticados e respiráveis que os exclusivamente de napa cinzenta, por incorporação do tecido nas zonas de maior contacto corporal com os assentos e encostos.

O número de exemplares fabricados e de existentes na atualidade, também justificam o fascínio pela raridade. Todos juntos, os exemplares de UMM Alvor possíveis de identificar atualmente, quer a circular, quer na imprensa da época, quer na Internet, quer na memória de quem os viu presencialmente, andam na ordem de grandeza da meia-dúzia. Como terão sido registados em 1992 com matrículas terminadas em AL e em BL, então não deverão ter sido produzidos mais que dois lotes. Tendo em conta que a União Metalomecânica fabricava habitualmente lotes de 10 exemplares, então, poderão não ter sido fabricados mais que 20 exemplares desta série especial – estimativa esta que não diverge substancialmente das poucas outras fontes consultáveis, ainda que sem consenso sobre uma quantidade exata.

Fica, assim, fundamentada a curiosidade do UMM Alvor – que é consensual quanto a ser um dos mais raros carros do Mundo.

Estratégia de reconstituição do UMM Alvor

O Alvor Cabriolet é dos UMM Alter II mais difíceis de reconstituir – não apenas pela óbvia raridade ou inexistência de peças específicas, mas sobretudo pela escassez de modelos.

Desta série especial, as fotos de marca publicamente conhecidas, resumem- se a esta meia-dúzia. Tal como corroborado pelo piloto-mecânico UMM Carlos Barbosa – TUCHA, que teve um dos protótipos de Alvor atribuído para serviço – estas fotos mostram os dois primeiros Alvor, ainda sem matrículas nem antenas de rádio, tal como foram apresentados na imprensa e nas feiras da época. Os dois carros diferenciam-se pelos pneus, e por um ter capota e outro não.

Em contraste com veículos produzidos em série pela União Metalomecânica, estes protótipos exibiam diferença de cores entre a carroçaria e o spoiler – também conhecido por “avental” – que apareceu com uma cor inédita e igual à dos para-choques, das jantes e das abas laterais.

Até mesmo as fotos de UMM Alvor feitas posteriormente – como se depreende pelos exemplares já terem matricula e antena – são demasiado escassas para constituírem fontes inequívocas, porque que nem a fábrica nem os proprietários de UMM ficaram para a História por manter a consistência das caraterísticas dos veículos.

Assim, para reconstituir fielmente um ALVOR Cabriolet, foi adotada a seguinte estratégia conservadora:

– replicar os protótipos, conforme as fotos e notícias publicadas à época do lançamento, e corroboradas pelas memórias de expertos UMM;

– tomar a mesma base da União Metalomecânica de 1992 – um exemplar de Alter II turbo intercooler de capota rígida, com as mesmas cores e motorização do Alvor. Para tal foi adquirido, a uma família de surfistas, este carro, de matrícula 50-44-BE, do mesmo ano, com as mesmas cores e motorização do Alvor – em condições de conservação favoráveis porque resultantes de restauro completo feito 8 anos antes;

– desmontar completamente o carro, para ser pintado da mesma cor por cima de pintura e chapa em bom estado, para depois montar novamente;

– empregar as peças e soluções da marca – maioritariamente com peças de origem raras em estado novo, ou em bom estado, e quase nenhumas peças modernas replicadas das originais que já não se arranjam nas melhores condições (como os autocolantes, a capota e suas fixações à carroçaria, a generalidade dos parafusos com que o veículo foi reconstruído e o sistema de fecho centralizado de portas).

– Para reduzir as incertezas, as evoluções do restauro foram sendo dadas a conhecer a outros expertos UMM não associados entre si – tais como membros do Clube UMM, vendedores de peças, restauradores, ex-quadros técnicos da MOCAR e das oficinas da União Metalomecânica, e proprietários de UMMs – que lidaram com inúmeros UMM de 1992, e com um ou outro exemplar de UMM Alvor.

– Deste processo iterativo de sobrevivência à revisão por especialistas, a reconstituição resultou numa réplica fidedigna dos protótipos de UMM Alvor. O consenso logrou uma incerteza marginal, que não extinguirá algum mistério em torno do Alvor – como, por exemplo, se os protótipos de Alvor teriam no tablier algum autocolante idêntico aos exteriores, com a palavra “Alvor” ou as nuvens? À falta de consenso, nenhum autocolante foi aposto no tablier deste novo Alvor.

Desde o processo de restauro, em 2021, até à atualidade, José Correia – que foi proprietário deste UMM Alvor de matrícula 48-28-BL, na região de Braga, na última década do século passado – foi consultado sobre as caraterísticas originais da sua viatura e foi constatando a fidelidade da réplica dos protótipos de Alvor.

Após findo o restauro, em 2021, Gonçalo Mateus Cunha comparou presencialmente a réplica dos protótipos de Alvor com um UMM Alvor original. Este original com apenas 28000 km, sem alterações à origem, fora quase sempre mantido em garagem, numa coleção privada com mais meia-dúzia de UMMs Alter que foram impecavelmente conservados pelo apaixonado UMM José Guedes, até adoecer e vir a falecer (já em 2022).

Nas várias vezes em que a réplica dos protótipos de Alvor e este Alvor original foram observados e conduzidos, não foram encontradas diferenças estéticas visíveis entre as viaturas.

De tudo o exposto, assume-se que este novo UMM Alvor distingue-se à vista de um protótipo da época de fabrico, pelo número de matrícula e pelo VIN.